Reflexões acerca da urgência de uma ética da alteridade
- Afyl Brasil

- 13 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Em meio a um dos acontecimentos históricos mais sombrios e calamitosos da humanidade, a Segunda Guerra Mundial, Emmanuel Lévinas articula a Ética da Responsabilidade, também denominada filosofia do Outro.O outro, aqui, já não é mais objeto de conhecimento ou um empecilho da minha liberdade, mas sim sinônimo de responsabilidade. A ética posta como filosofia primeira nos revela à consciência a partir do Outro, assim como sua subjetividade e intersubjetividade. Pois é justamente no reconhecimento do outro como ser dotado das mesmas faculdades existenciais que as minhas que há o desencadeamento da necessidade de uma ética.Durante seu tempo nos campos de concentração, Lévinas tomou como responsabilidade existencial a defesa do outro, buscando o “humanismo do outro homem“. A humanidade, costumeiramente, é seletiva quanto o reconhecimento do outro como indivíduo, como ser humano. Basta prestar atenção aos moradores de rua, por exemplo, e em como nós nos comportamos frente aos mesmos. Teriam eles nome, idade, cores preferidas, amizades, sonhos? Dificilmente a maioria das pessoas gostariam de saber algo do tipo, já que sequer costumam deixar de desviar o olhar quando os veem, algo tão constante que parece um reflexo natural.Com um pouco de reflexão, infelizmente podemos perceber que os grupos de pessoas desumanizadas e dignas de desprezo é gigante.
O vício nesta visão de mundo é herdado, consolidado através das gerações e, provavelmente, será perpetuado por nós.A Ética da responsabilidade é mais do que um desafio, atualmente se constitui como uma necessidade, já que nos perdemos em nós mesmos e em nossos desejos de forma tão profunda que seria um verdadeiro esforço reverter. O problema é que mesmo sendo um valor incentivado e justificado a todo momento na atualidade, este comportamento nos leva a nossa própria destruição enquanto seres humanos.Evolutivamente só nos foi possível sobreviver de forma coletiva, mas acreditamos fielmente que de alguma maneira não dependemos mais do outro, este se configura como um empecilho ou algo que pode ser usado e descartado. Séculos passaram-se e acabamos, também, por nos afastar do nosso próprio lar: a natureza.
Chegando num ponto onde temos a ignorância e o narcisismo dedestruí-la, e com muito orgulho, já que agora nos sentimos tão poderosos a ponto de decidir que dela não mais precisamos.O capitalismo desenfreado e desumano, o nacionalismo exacerbado, o delírio da minha superioridade perante o outro são parte da nossa sociedade.Há de se falar que sofremos de uma histeria coletiva, mas aparentemente vivemos em uma psicose coletiva. O distanciamento da realidade é tamanho que realmente acreditamos em toda esta estrutura e a chamamos de progresso, de evolução e de necessidade.Todas essas problemáticas poderão ser amenizadas, mas apenas quando percebermos, radicalmente, de que somos responsáveis por nossas ações e pelas novas gerações que estão por vir. Qual será o legado e os valores que deixaremos para elas?A ética da responsabilidade é, também, um processo de reconhecimento da realidade efetiva, que nos permite sair desse delírio coletivo em que vivemos e voltarmo-nos a humanidade, pela qual somos responsáveis; para aquele que não sou eu, mas que é minha responsabilidade porque é, também, ser humano.






Comentários