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Um breve desabafo sobre a “verdade”

Nietzsche é aquele que, de modo proposital e provocante, afirma que “toda a psicologia tem estado presa à temores e preconceitos morais”, pois “não ousou descer às profundezas” (ABM, “Dos preconceitos dos filósofos”, af. 23). Bom, podemos aqui ir um pouco mais além, juntamente com Nietzsche e com a psicologia, para levantarmos ao menos algumas reflexões sobre alguns pontos que nos são caros, de modo geral.

Não trata-se apenas da psicologia em si, mas o que podemos notar através dos afiados aforismos do nosso filósofo de Sils-Maria, é a ideia de que o homem moderno, que tanto exalta sua razão e sua ciência, está preso à temores e valores morais, e isso deve-se em grande parte, à sua busca incansável pela tal “verdade”, sua incondicional “vontade de verdade”. É digno ressaltar que não tenho por objetivo trazer um “resumo” esquematizado dos principais conceitos – já muito especulados – da filosofia nietzschiana. Mais do que isso, proponhocolocar em xeque a seguinte questão: estamos fazendo diferente hoje? Nossa época pós-moderna conseguiu superar o dogmatismo quanto à busca de uma “verdade”? Nós superamos esse ímpeto a uma “vontade de verdade” a todo custo?

Nietzsche direciona com muito mais ênfase essa crítica aos ditos “filósofos dogmáticos”, em Para além de bem e mal. Obviamente, tal crítica não se encerra aí. Inclusive, podemos seguramente afirmar que ela cabe em nossa atualidade, pois, a partir da perspectiva nietzschiana, tentar alcançar verdades finais e definitivas não é algo apenas característico da tradição filosófica que o precedeu.Ora, qualquer um que se agarre à uma convicção, doutrina, opinião – essa necessariamente tendo que ser única e imutável –  sofre desse mal que é a “vontade de verdade”. Isso faz parte de nossa condição humana, demasiado humana. Porém, contra a verdade e o dogmatismo que a persegue, Nietzsche erige, como uma grandiosa crítica, a sua escrita aforística, nos querendo ensinar a fluidez do pensamento: os aforismos não podem ser tomados como verdades únicas e conclusivas, mas devem, ao contrário, indicar direções, perspectivas, devem ser tomados como parte do processo que é aprender sua filosofia. Mesmo hoje em dia, em nosso mais alto grau de instrução, seja com nossas escritas, nossas teses, nossos textos, nossos debates em mesa de bar, acabamos nos esquecendo de colocar todo nosso pensamento, nossa mais alta razão, nossos afetos, nossa vontade, enfim, em um patamar de crítica: eles não devem ser tomados como verdades últimas, e ainda assim, o fazemos. Nós os transformamos em valores; vestem o manto da “imutabilidade”, da “unicidade” em detrimento da nossa realidade do vir-a-ser, da multiplicidade de perspectivas. Mal de uma sociedade pós-moderna? Sim. Mas também somos capazes de nos atentar para essa reavaliação dos nossos valores, afinal, nunca é tarde demais.

Por outro lado, o que podemos levar para o divã através dessa crítica nietzschiana, é o extremo que esse quadro chega.Dialogando com a psicologia de C. G. Jung, para esse aconsequência é que tal ímpeto, escamoteado como uma vontade suprema de encontrar na razão o sentido da existência humana, a almejada aeternaveritas, escapou do controle do homem e tornou-se sua obsessão. Deixando de ser uma ferramenta, começou a moldar seu mundo; isto é, a busca incansável pela verdade tomou os rumos de nossa civilização, pois essa tal verdade precisa ser irrefutável, eterna, imutável. Ou seja: tomamos, de fato, a verdade como um valor. Só que de modo avassalador, hoje em dia estamos pagando um enorme preço.

Vejam, o intuito não é trazer aquium conceito meramente fechado à um texto e à um filósofo do séc. XIX que por sua temporalidade foram superados. Mas sim, um sintoma deveras preocupante de uma sociedade completamente doente que nos assola hoje, em pleno 2021, através, por exemplo, de uma religião que trouxe das cinzas o discurso da intolerância e do ódio; detodo o tipo de  ideologias fechadas em seu “frenesi coletivo, como diria Jung, que não admitem estar condenadas a um único, impositivo – e não menos cruel – ponto de vista; através de indivíduos que, em meio a uma pandemia mundial, fecharam os olhos para a ciência e a ética, e dessa forma preferiram dar primazia às convicções do ego – inflado, agressivo e neurótico, já bem dizia Alfred Adler – em detrimento da vida do outro, do coletivo. Por fim, e não menos assustador, nossa sociedade abraçou uma “vontade de verdade” extremamente doentia a partir do momento em que o atual líder de nosso país tomou para si o conceito “Deus” e com ele os valores mais arcaicos do cristianismo, e com isso acabou por erigirseus dogmas, suas convicções como “inabaláveis”, “imutáveis”, acima de seu povo.

O que acontece é que atualmente as razões máximas de cada grupo, cada indivíduo, Estado, Igreja, enfim; transfiguraram-se em seus valores mais supremos, e com isso, rompeu-se um grande desequilíbrio no psíquico de nossa sociedade: essa tornou-se neurótica. Devido a essa unilateralidade, isto é, essa negação incondicional de novas perspectivas, esse enraizamento extremo às verdades que cada um decide erigir, nós, os pós-modernos, não transcendemos em nada em nossa história. Assistimos, com muito pesar,cada vez mais a catastrófica transformação de dogmas, opiniões e ideologias em verdades absolutas, levando a um terrível retrocesso com relação à política, religião e sociedade. Enfim, Nietzsche nos deu o laudo, através de sua filosofia das profundezas, e os psicólogos posteriores apenas o confirmaram: “São precisamente as ideias subjetivas que estão mais próximas da natureza e da essência e, por isso, pode-se dizer que são as mais verdadeiras. Mas, “o que é a verdade?”(JUNG, Freud e a Psicanálise, 1998, p. 324).

A pergunta que nos resta, é:podemosreavaliar esse ímpeto de ter a todo custo uma “verdade”? Podemos, assim como Nietzsche e seus aforismos, não nos fixarmos cega e furiosamente nas nossas ideias, mas ao contrário, com elas trazer novas perspectivas? E não menos importante: como podemos lidar com essa neurose “do que é verdade” em nosso meio?

 
 
 

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