Por quem eu fui criada…
- Afyl Brasil

- 13 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Não sei se por estar sentindo saudades da minha avó (deve ser), mas hoje resolvi escrever sobre as vovós e os vovôs! Eu tenho muito boas lembranças da minha avó (a avó paterna morreu quando eu tinha 3 anos) e dos meus avôs!
A história é assim: minha avó paterna faleceu quando tinha 3 anos, e eu só consigo lembrar de uma mulher morena, alta, de vestido longo e lenço na cabeça, na porta de casa. Já o meu avô paterno era a pessoa mais tranquila e amorosa que conheci, nunca o vi exaltado ou falando mais alto com alguém. Ele me passava paz! Com seus longos cabelos e nenhum pelo nas axilas (achava aquilo engraçado), meu avô passou a vida cuidando de minha tia que tem problemas mentais e costurando suas roupas, era alfaiate (como se chamava antigamente).
Os meus avós maternos eu tive muito mais contato. Na verdade fui criada pela minha avó materna, pois meus pais trabalhavam o dia todo.Meu avô era severo, daquele que colocava ordem na casa. Mas tinha por mim carinho e admiração, inclusive me chamava de “Deputada”, pela minha ousadia, sempre falante e comunicativa. Eu continuamente falava, desde criança, que seria professora, e ele me presenteava com quadros negros e giz (sou da década de oitenta). E eu colocava minha irmã e primos para serem meus “alunos”.A minha avó materna é minha referência de vida, para mim é um exemplo de mulher, lavou “roupa de ganho” para ajudar a criar os 9 filhos vivos. Mulher negra e pobre. Lembro-me dela com seu lenço na cabeça, rezando as crianças do bairro que estavam de “mal olhado”. Me ensinou a ser humilde, humana, honesta! Me ensinou a respeitar as pessoas, principalmente os mais velhos. Ela sempre tinha as orientações certas a dar.“Formiga quando quer se perder cria asas”“Puta só, ladrão só”“O seu melhor amigo é seu dinheiro no bolso”Mas somente a ela eu pedia a benção! E ela me abençoava, como a tantas netas e tantos netos e bisnetos que criou.
É assim nas tribos indígenas e nas comunidades tradicionais, como nas comunidades de Terreiros de Candomblé, de Umbanda, as comunidades Quilombolas, e tantas outras que temos em nosso país. Acompanhando as festas e celebrações do “povo de santo” (fiz isso muitas vezes com minha avó e minha mãe), quando se canta para os Orixás ou Inquices (depende da etnia africana de origem), as mais velhas e os mais velhos são reverenciadas e reverenciados. A eles se deve respeito, pois eles são os guardiões, com eles podemos conhecer as histórias, os ensinamentos, que são passados de geração em geração, através da oralidade. Nada que os livros ou qualquer outro instrumento possam “guardar”. Ainda que tenhamos conhecimento acadêmico, ainda que tenhamos outros instrumentos de busca de informação, nada se equipara ao conhecimento aprendido com as mais velhas e os mais velhos.
Imagino como deve ser interessante o envelhecimento (sou da década de 80 – já estou com 38 anos). Pensar em como construímos nossa história, todos os erros e acertos, as conquistas e derrotas, e, principalmente, os caminhos.De que maneira?Quais escolhas?E renuncias?
Sinto saudades do colo e da comida da minha avó, lembro-me de estar sentada entre as pernas dela enquanto ela fazia tranças no meu cabelo e no de minha irmã, para irmos à escola. Ela não era de falar que ama, nem de colocar no colo. Mas ela ligava quando fazia aquela comida preferida. E a minha era feijão de leite. Ela mantinha sua família unida. Pedia a benção a ela, com um beijo na mão, e ela dizia: “Deus lhe abençoe”. Às vezes parecia algo automático, mas era cheio de amor e sinceridade.
Esses são as mais velhas e os mais velhos, e são exemplos para mim.Meu avô paterno nunca teve outra mulher após o falecimento da minha avó. Sua vida era costurar, cuidar da casa, da família, em especial da minha tia doente. Nunca se furtou da responsabilidade da família, seu ensinamento foi pelo exemplo, sempre muito cuidadoso e tranquilo.
Meu avô materno sempre levava todos os netos dia 01 de janeiro para o primeiro banho de mar do ano, assim começávamos melhor o ano.
Enfim, já não tenho mais nenhum deles vivendo aqui, porém os seus exemplos e ensinamentos, a lição do amor, da responsabilidade, da honestidade, da humildade, do cuidado com a família estão sempre presentes em mim e nos seus.
O que me resta é seguir os exemplos e, claro, muitas saudades de todas elas e todos eles.
Mas esse texto é em homenagem a minha avó Antonieta Dias Nascimento.






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