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Poemas – Incontinuum e Ralentar (Dori Araújo)

Incontinuum

Muito tempo se passouAté ela conseguir enxergarA sombra transparente do véu da vida.Pessoas se movem cá e láE depois aquiMas não tem sentidoPorque todo sentido é empréstimo do nada.Onde se esquece a sombra fina do real?Foi preciso que o tempo passasse e a usurpasse em plano estérilComo era de se esperar.A pandemia chegou, foi se instalandoNa camada mais crua do dia a dia – a qual ousamos esquecer.Mas ela viu, sentiu, intuiuQue as carnes se consomem num ritmo intolerávelAs partes se decompõem visceralmenteAntes e bem antes do labor pandêmico.Nos resta algo? e o que aponta aquilo que se esgota?Agora ela trata de encontros e desenlaces – Ouro metalNo fim do dia ouve ele dizerVocê tem um enigma pra mim?Sim, tenho, responde.Sempre os ponho a descoberto e te abro as mãosE os coloco no centro do nosso calorMas essa esfera energética apareceDe forma tão avassaladoraQue apenas caloE mato nosso daimon.

Ralentar

Após longo silêncioFicou a descobertoQue podemos retorcermo-nos junto às coisasMais que issoÉ assim que coexistimos.AgoraNos tergiversamos para nos acomodarmosEm qualquer tecidoSe for estranhoAinda mais possível.É preciso encolherAté caber no espaço invisível das folhas mortasQue ainda balançam e dão voz ao mundoe para além dele.Nos retocamos– Refazemo-nos? –Entre vírus, corpos e desesperosNos sentimosSem sentirDes-olhares MitigadosSuprimido o fio de Ariadne.Toca-se a boiadaSegue o diaMais um de solOutro de silêncio

 
 
 

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